e agora?


























*
a areia transfaz em escamas de fogo o epitáfio dos predadores






gravidez ultra.uterina


























*
se um dia o de.gelo me deixar grávida do sol
filharei o luzeiro em que te habito






ausência em a-braço


























*
jamais entenderás
.o meu canto é outro
.tu falas de números
eu escrevo poemas






lençóis de vento


























*
esquivo em lençóis de vento
sustento de Poesia e tanto






quando a dúvida se suscita


























*
porque me ofereces o silêncio
se o ruído é o teu corpo?






artrite


























*
gostaria de ser poeta
não fora a artrite reumatóide que me atrofia os miolos






é tempo .3


























*
é tempo           da rosa transmutar o cravo
na ruga do in.diferente






é tempo .2


























*
é tempo           de sacralizar a trova
no rebuço de um canto-chão






é tempo .1


























*
é tempo          do adeus aos álamos que
circundam a casa frívola de gargalhadas






transvios


























*
há esgares de morte nos passeios






requiem


























*
agora sim
agora desfaço o a-deus num a-braço de sol






o douto mimetismo dos salmos


























*
um pouco
mais de solicitude agradece-se se as palavras
consentirem

.como apóstata ,a linguagem da víbora






dormir devagar


























*
mareja o cansaço nas pálpebras
                                      pousadas sobre a cama
como se fossem salmos
                                      [pr]escritos pelo a-caso






memórias epigráficas


























*
tacteia as memórias com os olhos acesos e
toma consciência do olhar-vazio






dos sonhos rezam as crónicas


























*
somos um tudo nada
de gente a salivar agravos






adagietto for cello & piano


























*
fechou-se o círculo das presenças quando
se suicidaram as gargalhadas e
o gato Kafka se enrolou nas cordas do violoncelo
( ao longe – delicada -  a sinfonia nº 5 de Gustav Mahler )






exercício para um tema


























*
1.na sagração d
as árvores nuas
a ascenção d
a folha
celebra a liturgia
sacra
//
do laico
.
Outono
.






nostalgia dos segundos


























*
esta noite render-me-ei ao fogo do teu corpo
                 e
qual ladrão de
a-mar              
                 criarei raízes
no suor das ante.esperas






Ulisses agrilhetado

























*
o Verão entorpece os feitos sublimes e eu
- no rescaldo do levante
- espero-te 
                                                    na paliçada dum castelo de areia





poemas-barcos






























*
faz-se da lágrima um oceano
                   onde os poemas-barcos
                                          navegam à bolina
                                                          em direcção à margem
o pensamento ao leme







valeu a pena


























*
cedi à temperança de um a-mar
per-verso






repouso


























*
solenizo a dança
( das mãos )
pelas curvas do teu corpo






escrita de silêncios


























*
escrevo com as unhas cravadas na pele
.a mente e
o ventre abertos ao des.norte






( des )concerto


























*
ao som do stradivarius
as pálpebras revestem-se de pautas rasuradas






tatuagem


























*
amanhã levantar-me-ei devagar e comentarei o a-braço
( impresso )
na tua pele






estado de guerra


























*
render-me-ei ao verso
no dia em que for declarada guerra ao venal






corrupção


























*
reservo ao canto o direito de em flor corromper os dias






falta a vermelho


























*
as carruagens vazias aguardam e
eu fêmea apronto-me a parir desvarios

.Ártemis marca-me uma falta a vermelho






serviço nacional de saúde




















*
alguém lhe prescreveu o diagnóstico – poeta
e ele [ zás! ] adoeceu






descalça na areia


























*
estendo-me sobre a areia da casa
na minha casa
( descalça )
dentro do poema






um folhear de véspera


























*
deixo a noite’Ser sobre as palavras e
folheio vésperas no enleio dos corpos






paleta placentária


























*
as mãos tecem trilhos
a quem se alvitra pintor de mim






em Veneza


























*
em Veneza
( sereníssima )
os deuses desnudam-se numa dança pagã






breviário


























*

em azul
os pássaros resistem à brisa
que escorre a acender o dia






registos de tempo


























*
deixa-se envolver
como ínsula em alvoroço .palavra mensageira num abreviar de sínteses






contra-forte


























*
guardam-se entre os dedos os búzios que revestem
os poemas con.sa(n)grados






o pão nosso de cada dia


























*
hoje – senhor
- mitiga-se a fome com antífonas litanias cânticos e salmos






desejo


























*
inebriados
os Amantes demandam-se na implosão da lava






trovadores


























*
os poetas são pássaros/
/trovadores em plena nidificação






as mãos


























*
as mãos/
/agnósticas
esculpem muros de neve no aranzel






a-mar


























*
na espuma da onda
as nuvens pressagiam um brincar
a-mar






"in memoriam"









aos meus Irmãos


























epígrafe








os olhos dos pássaros deslizam pelas palavras


























.1











Luigi Pellanda








espúrios silêncios .notas brevíssimas


[ as memórias deslizam céleres no respirar
das marés ]



( Silves ,2010 )